Camisa xadrez, bermuda, barba, um corte de cabelo diferente. Abriu o portão com familiaridade, passou pelo cachorro placidamente, limpou os pés no tapete, entrou antes de mim e completou, de soslaio:
_ Limpe bem os pés, não quero que suje a casa. Sorriu como garoto.
A casa era minha. Cheguei um segundo depois deles, vinha da minha aula de italiano e ainda tinha na boca os sons doces de palavras como uscire, caminamo, Brescia; no cabelo umas simpáticas gotas de uma garoa e no coração... Deixemos de lado o coração.
Preparei um chá para mim, sempre gostei da bebida, mas na minha caneca nova, presente especial, o sabor era bem melhor. Enquanto sorvia meu Black Tea alemão, outra excentricidade patrocinada por uma amiga viajante, ouvia as vozes deles no quarto. Falavam sobre música e trocavam as cordas de um belo violão folk; adoravam aquilo, era o que lhes dava vida. Confesso que cheguei a ter ciúme do instrumento, achava que meu filho gostava mais dele do que de mim. Neuroses elementares de mãe, passageiras, duraram apenas até reconhecer nos olhos dele a jovem alegria que eu mesma vivi por tantas outras razões e pelo diminuto momento de conter o meu absoluto orgulho ao ver seu talento.
Senti as notas e pensei em quanto tempo fazia que eu conhecia o outro rapaz. Vi um garotinho escondido atrás de um violão cantando sozinho o Sozinho, moda na ocasião, graças à doçura de Caetano Veloso, quando meninos não tinham vergonha de assumir seus gostos impopulares – Música Impopular Brasileira, nas palavras de Júlio Medaglia.
Cantara num festival de música organizado por mim, uma celebração mágica da arte e da juventude, quando esta não tinha vergonha de ser mágica nem de celebrar a arte. Ouvi os aplausos, senti a energia do público, escutei a voz do apresentador e esbarrei nas minhas palavras no discurso de abertura. Tive saudade de mim, de ser plena, de ser autônoma, de poder, de como eu era capaz de transformar: pessoas.
Fui a meu bagunçado e adorável escritório, abri uma das portas da minha estante, primeiro item da casa nova, e peguei sem errar uma pasta preta com uma legenda: Festival de Música. Deslizei passos sonhadores até o quarto e sorrindo perguntei ao meu filho: Conhece? Ele retribuiu com aqueles dentes que eu desenhei e mostrou ao amigo.
Ao sair do quarto, senti o riso saudoso do outro ao se ver e sei que ele percebeu que participei da sua história. Não sei se entendeu o quanto participou da minha, principalmente do meu presente, modificado naquele instante de ternura. Instante em que voltei a ter orgulho de ser o que sou.