Sempre me pareceu piegas a expressão "meu mundo caiu", um desgaste só. Desta vez o lugar-comum me apunhalou e o texto vai ficar cada vez mais banal, advirto: não leia - não é Literatura, era também uma lacuna, agora é um rombo, uma cratera.
Derreteu é mais que caiu e eu que sempre fui tão sólida, derreti. Foi sentindo um fantasma passar por mim, um monstro, o lixo. Esse fantasma não me assusta, mas assusta uma menininha com os cabelos iguais aos meus e com a pureza que eu já perdi. Esse monstro, em cujas veias insiste um vermelho familiar, conta com cegos adeptos, cobertos por uma velha culpa; alheios ao mundo verossímil vão pisando a lama grossa da mediocridade. Esse lixo tem o ardil de sequer feder, mas fede e contamina, borra, mancha, macula.
Derreteu é mais que caiu e eu que sempre fui tão sólida, derreti. Foi sentindo um fantasma passar por mim, um monstro, o lixo. Esse fantasma não me assusta, mas assusta uma menininha com os cabelos iguais aos meus e com a pureza que eu já perdi. Esse monstro, em cujas veias insiste um vermelho familiar, conta com cegos adeptos, cobertos por uma velha culpa; alheios ao mundo verossímil vão pisando a lama grossa da mediocridade. Esse lixo tem o ardil de sequer feder, mas fede e contamina, borra, mancha, macula.
E eu fico deslizando aqui, nesta madrugada infinda, sem saber se é melhor que ela acabe, sentindo um dilaceramento bárbaro, brutal, medieval; nem Wallace aguentou, então não sei o que esperar do meu coração valente e fragilzinho.
Sinto as páginas de um livro realista, sinto Eça e Machado passando chagas de mães para filhos, penso na infelicidade de Carlos da Maia, no fardo de Eugênia...O rostinho da menina volta, doce, belo, à mercê de quem deveria protegê-la e orar debaixo dos cobertores, em silêncio, por tê-la recebido, perceber o calor quando está frio, chorar de contentamento ao vê-la respirar, sentir o toque divino por ter sido, um dia, a casa e o alimento de uma vida.
Atenho-me à conversa boa que tive horas antes, à ação benéfica do tempo, porém meu tempo é quando e minha pequenez é hoje; busco portas e respostas, também um pouco de ar. O vulto sopra, o monstro persiste em crescer à medida que me distraio, me traio e o lixo se aproxima dos meus pés, um lodo.
Sozinha, fico bem acompanhada, vasculho e confio encontrar um vestígio de fel para me servir de escudo e, com o escudo da palavra ou da quietude, vou dificultar que se transmita o legado de nossa miséria a um alvo jasmim.