sábado, 30 de abril de 2011

Chão

    Sempre me pareceu piegas a expressão "meu mundo caiu", um desgaste só. Desta vez o lugar-comum me apunhalou e o texto vai ficar cada vez mais banal, advirto: não leia - não é Literatura, era também uma lacuna, agora é um rombo, uma cratera.
    Derreteu é mais que caiu e eu que sempre fui tão sólida, derreti. Foi sentindo um fantasma passar por mim, um monstro, o lixo. Esse fantasma não me assusta, mas assusta uma menininha com os cabelos iguais aos meus e com a pureza que eu já perdi. Esse monstro, em cujas veias insiste um vermelho familiar, conta com cegos adeptos, cobertos por uma velha culpa; alheios ao mundo verossímil vão pisando a lama grossa da mediocridade. Esse lixo tem o ardil de sequer feder, mas fede e contamina, borra, mancha, macula.
   E eu fico deslizando aqui, nesta madrugada infinda, sem saber se é melhor que ela acabe, sentindo um dilaceramento bárbaro, brutal, medieval; nem Wallace aguentou, então não sei o que esperar do meu coração valente e fragilzinho.
   Sinto as páginas de um livro realista, sinto Eça e Machado passando chagas de mães para filhos, penso na infelicidade de Carlos da Maia, no fardo de Eugênia...O rostinho da menina volta, doce, belo, à mercê de quem deveria protegê-la e orar debaixo dos cobertores, em silêncio, por tê-la recebido, perceber o calor quando está frio, chorar de contentamento ao vê-la respirar, sentir o toque divino por ter sido, um dia, a casa e o alimento de uma vida.
  Atenho-me à conversa boa que tive horas antes, à ação benéfica do tempo, porém meu tempo é quando e minha pequenez é hoje; busco portas e respostas, também um pouco de ar. O vulto sopra, o monstro persiste em crescer à medida que me distraio, me traio e o lixo se aproxima dos meus pés, um lodo.
   Sozinha, fico bem acompanhada, vasculho e confio encontrar um vestígio de fel para me servir de escudo e, com o escudo da palavra ou da quietude, vou dificultar que se transmita o legado de nossa miséria a um alvo jasmim.

sábado, 16 de abril de 2011

Epopeia

1º Ato

Ela descobre que o corpo é uma boca. Pensa na capa de um livro de Drummond e abraça uma estrofe:
“Meu corpo não é meu corpo,
é ilusão de outro ser.
sabe a arte de esconder-me
e é de tal modo sagaz
que a mim de mim ele oculta”
Não sabia, nunca soube que poderia dizer tanto para tantos sem uma letra. Foi a primeira vez que ultrapassou o papel e a tinta para reverenciar um mestre: seu baile de debutante foi Shakespeare. A noite não era de verão, mas estava inundada de vida e no ermo da pista se sentiu acompanhada.
Passeia pelas páginas e não descobre mais – só uma dedicatória.

 2º Ato

Volta-se para a dedicatória de 1989, começa com “Como podemos nos perder de vista” e termina com “caso contrário não te presentearia com Carlos Drummond de Andrade”.
Só pensou nele, não na pessoa que lhe dera o livro, no sentimento, na ausência, só neste que não abandona seu pensamento e soube que mais uma vez a linha reta a afastaria de alguém.

 3º Ato

Veio a alegria de ver rostos entendendo o indecifrável, veio a preocupação de ver tantos olhos devassando a alma, veio o conforto de saber que mais almas compartilham.
Fixou os olhos nele e soube que algo havia se quebrado, se rasgado. Estava calmo demais, impassível demais, natural demais. Meu coração disparou foi a frase dele, envolvida num gesto desajeitado, com a mão dela ao contrário. Pra sentir o movimento, é preciso usar a palma, qualquer um saberia, sobretudo ele, tão perspicaz. Ele não. Denúncia do que seria o resto do dia.

 4º Ato

Nunca mais parou de bater e ela ficou atônita, camuflada em sua taurina vitalidade. Eram os mesmos impulsos, diferentes impulsos, eram as mesmas paixões, paixão de dor, paixão de doer. Pupilas dilatadas, nem precisava de médico. Sim, um médico, por favor! Olhe aqui o sangue, é sangue mesmo, não é merthiolate.  O corpo falou outra vez. O nome disso é carinho. É só o que se pode fazer... e amar e querer bem.

 5º Ato

Chama-se ato quando não há ação? Quando não se pode agir? Quando só se pode oferecer a presença? Pulou essas. A outra resposta veio como cortesia pelo dia, ia, ia...É preciso escolher bem e depois dizer: Eu te amo. Totalmente clichê. Graças a Deus.