sábado, 27 de novembro de 2010

Angústia



         O nome desta fonte é andalus, assim mesmo, com s. Queria que fosse com z, queria conhecer a Andaluzia, queria estar lá, queria ver se lá veria o que quero tanto ver e mais: deixaria de ver o que tanto vejo.
         Estou exausta. Meu sangue claro sangue é a clarividência da minha exaustão e o dicionário infeliz e mordaz assim retruca “(O amor) de todos os sentimentos humanos, é o único que não se exaure.” Então não irei à Espanha, não buscarei vestígios de Lorca. Lorca está aqui bailando em tantas bodas de sangre, bailando em minha diminuta alma. Alminha indefesa.
         Ouço palmas místicas e fervorosas na calçada, insistem, eles querem minha alma e uns trocados. Talvez devesse mostrá-la...Eles ficariam chocados, eu ficaria na paz da alienação consentida. Bobagem, nunca fui de escolher o fácil. A frase derradeira, entre risos, na aula de italiano era “Se eu não me matar, qual é a razão de viver?”
         Não era para me lembrar, me custa dizer, já está na boca – Tu mi manchi. Você me faz falta. O golpe na língua de Petrarca. Deve ter sido mais simples para ele, tomado pelo racionalismo que me abandona, era mais feliz. Era mais feliz? Eu não era feliz e não sabia...
         Sei que nesta busca, buscarei menos e me alimentarei mais. Sentirei mais a chuva domesticando meu cabelo, o sol das seis no retrovisor, as primeiras palavras da menininha, as cordas do sábio violão, o afago desinteressado, o elogio das bocas sonhadoras, os sons da minha casa e as palavras dos mestres da Literatura, minha traidora companheira.
         Querer menos é muito difícil, desde agora é minha escolha.
        

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Abraço



ABRA
ABRA-O
ABRA O AÇO
RASGUE
CORTE
DESPEDACE
ABRA-SE
ABRASSE

            Era lacuna. Era. Era um toque só. Só um toque, viu? De quem acha que vale um... só, só os olhos, só um riso – sorriso – só a terra, o cheiro da terra.
            Quando nada mais diz nada mais, só sinta o que vale. Ceda à água que mata a sede, ceda ao que Freud não explica, ceda ao apelo do que é simples, doce e terno, eterno, como um abraço silencioso, cheiroso, zeloso. Vale escolher de quem, porque afinal é tudo o que importa para combater a solidão que assola e desconsola, nessa imensidão árida e fértil das falsidades e das voluntárias cegueiras humanas.
            Quando era só eu e o espelho, quando era só eu e a minha face tudo era mais difícil. Minha face. Minha face conta a história de quem vive de contar histórias de quem tem muita história pra contar. Gosto dela, expressiva, autêntica, destemida, destemida a ponto de ousar conhecer o que é o outro e sentir essa tal felicidade. Abraçar. Dividir. Multiplicar. Compartilhar. Reconhecer. Reconhecer-se.
            E deve ser hora de dizer obrigada. Obrigada por sua mão que tocou a minha, por sua risada que abriu meu rosto, pelo minuto que você esticou para ficar comigo, pela tarefa que você não cumpriu para ficar ao meu lado e, principalmente, por não me cobrar nada disso e ainda ser feliz.
            Estranho. Diferente é agradecer, se entregar, fazer o simples quando o simples é tão complicado. É exatamente o necessário, o imprescindível a fazer para delimitar quem somos e quem são os que nos cercam e nos merecem, merecem nosso abraço honesto e profundo. Para saber que somos apenas e tudo isso, que tudo isso vale a pena. Só isso.


terça-feira, 2 de novembro de 2010

Tristeza

Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo tempo tempo tempo
Caetano Veloso

Tristeza

            Será que duas pessoas que não se entendem podem se entender?
            Tempo, tempo, tempo...
            Ela era uma das preferidas, sempre há alguém assim, não sei se é o olhar que oferece abrigo ou a capacidade de usar as palavras certas, mas sempre há alguém e, neste momento, ela era uma das preferidas. Não fosse isso, não teria a audácia sorrateira de arremessar “eu sei por que trata bem o...”. Antes de perguntar de onde teria vindo aquela ideia, interrompi listando todos os motivos que ela não buscava, quando revelou “você foi namorada do pai dele”. Respirei e corrigi dizendo que não chegou a ser um namoro, mais uma vez o golpe “mas você foi o grande amor da vida dele”. Respirei e sorri.
            O fato é que, entre uma coisa e outra, há um intervalo que supera vinte anos. Não muda nada hoje, não gera reflexões de como poderia ter sido, não vira novela da linha valeapenaverdenovo, não é isso. Fico pensando nas grandes vantagens que o ser humano encontra em sonegar sentimentos e a resposta é óbvia – vantagem nenhuma.
            Muita gente já se atreveu a falar sobre o tempo, eu não, nem o farei. Simplesmente tento responder a pergunta de um amigo. Por que está triste? Não fui capaz de organizar os pensamentos e formular uma explicação, entendo apenas que o meu mal, mal do ser, seja não realizar o que busca e se angustiar com o irrecuperável, para citar Vinícius “o tempo do amor é que é irrecuperável”.
            Confessei o meu. Confessar é um bom verbo para crimes, amar pode ser um? Eu não entendo, não me entendo, ele também não, é assim que nos entendemos – um encaixe perfeito em condições imperfeitas. Sei é que não esperei vinte anos e minha tristeza ficou menor, menor, mas existe. Existe porque esse amor que ensina, me ensinou a encontrar vida em mim, vida até então ligeiramente morna, de alguém que se preparava para envelhecer. Viver é perigoso em qualquer vereda.