sábado, 24 de dezembro de 2011

Troca




Para RM

Meu coração é seco.
Com água e com a semente certa ele sorri dengoso.
Meu coração é seco.
Gosta de uma chuva de letrinhas caindo sobre ele.
Aguarda quietinho um afago.
Mas meu coração é seco.
Essa é a verdade que eu não vou esconder.
Não fede nem cheira.
Meu coração obedece. Serve a bondade de quem o respeita.


            Entrei naturalmente, desabei meus papéis naturalmente, cumprimentei naturalmente, sorri naturalmente - meu sorriso nunca foi comprado. Natural porque é assim que sei ser feliz ou pelo menos sei ser eu. Detesto convenções e escapando delas, dentre tantos atentos, sedentos e belos olhares, destaquei o seu. Fato é que não se limitava a olhar, ria com verdade, perguntava com verdade e crescia com verdade naquele grupo amado prontamente. Cresceu não é força de expressão, quando se levantou, olhei pra cima e pensei: Ela poderia casar com o meu filho.
Fui e voltei. Escrevi e apaguei. Hesitei entre poesia e prosa. A certeza ficou no título: Troca.
De você, minha amiga, recebi. Pra  você, entreguei. Não importa o que.  
Não economizamos elogios, confidências, amarguras, nem agradecimentos. O melhor é que nunca me agradeceu mencionando o que aprendeu comigo e eu nunca agradeci pela amizade que me confiou. Nós trocamos. Compartilhamos minutos singelos e sinceros de vida.



terça-feira, 15 de novembro de 2011

Bússola


Esqueceu-me o sorriso.
Nunca vi dias tão nublados.
É cinza que não finda.
É vento que me arrasta.
Essa é a verdade ou há um eclipse nos meus olhos? Meus ouvidos e minha percepção me traem ou o horizonte ficou turvo?
Dias cinzentos formam um redemoinho em volta de meu frágil destemido corpo e não sei mais discernir sobre onde está o Norte. Aliás, pra que o Norte?
Iria bem feliz pelo Sul se lá pudesse escolher o rumo dos meus passos, um zigue-zague aqui, uma pausa ali, uma disparada que fizesse os meus lábios tomarem forma de coração, é assim que eles ficam quando rio, se ainda me lembro.
O Oeste não me assusta, nem o Velho Oeste com seus índios vibrando línguas para intimidar os cowboys, nem com seus cowboys multiplicando tiros para intimidar moicanos e cherokees. Minha língua fere mais e lá descansaria muitas palavras ácidas numa estante bem empoeirada.
O Leste me é um passeio, buscaria nas ruínas do mundo minha essência adormecida, buscaria muitas explicações entre os sábios gregos, minha pureza num pueblo e deixaria minha melancolia pendurada num varalzinho em alguma viela. Esperaria o Calor que me encontraria, aqueceria meu peito, encostaria minha cabeça e me apertaria enquanto soluço. Forte, forte, tão forte, até que eu não tivesse mais motivos para sofrer.
Eu olharia grata, procuraria sua face para retribuir com um beijo e caminharia para qualquer parte, porque com ou sem o impassível cinza, eu estaria comigo, seria mia senhor.


domingo, 23 de outubro de 2011

Quadros



            Tudo sem cor ao redor. Havia cor, sem cor. Nada parecia mostrar vida, era um cinza, um bege, um chumbo, um nada.
            Só o meu ódio tinha cor, era vivo, era tudo.
            Pinturas inimigas oprimindo o que, de fato, não tem espaço. Talvez nunca tenha havido o espaço, mas sempre houve o tempo e ele, agora, passou a me abandonar e tomou lugar numa das telas.
            Num dos quadros uma figura que me incomoda, o personagem tem uns olhos que tentam me adivinhar, me invadir, sua presença guarda traços de bondade, porém sua ausência é o que mais me agrada. O som da sua partida me alivia, me desafoga, abre meus pulmões para que eu possa sorver um pouco de paz, eliminar esse cubo de gelo da garganta, procurar meu rosto em algum espelho e falar comigo; falar com minha triste imagem.
            É possível que o resto seja só isso mesmo: olhar-me e esboçar meu capítulo de negativas. Nele não ocupo o papel de protagonista, nem tenho opção de estraçalhar minha dor numa capa de vilã, permaneço uma desajeitada títere sem direito ao Óscar de coadjuvante.
            Noutra parede, minha culpa vertia um líquido viscoso constituído por moléculas pequenas de sonhos pequenos e moléculas gordinhas de grandes sonhos, os realizáveis e necessários e os folgadamente só sonháveis, somente só, de tão bons, daqueles que bastam estar na alma para o sangue poder correr.
            A terceira parede trazia pinturas tão abstratas, que não sei se as entenderei algum dia. Devem ser para o nosso não entender, para que o dia siga e haja um motivo para abrir os olhos no outro dia, não que sugerissem coisa boa, nem ruim, nem coisa alguma, só uma desculpa para a busca.
            Em frente ao nada, coberto por uma casquinha de vidro, via meu rosto tentando ver o outro lado. Era só encostar, pressionar e a película se partiria ou então poderia cinematograficamente chutar e despedaçar o que me separava do mistério. O que me impediu e sempre me impede é esse novato que adotou o nome de Medo, afinal com ele não se reconstrói o vidro, não se atravessa a fronteira, ele não é passagem, não é passaporte, não é ingresso.
 O Medo é o medo, às vezes protege, às vezes priva, sempre paralisa.
Estou procurando meus pincéis e minhas tintas, mas sobre meus olhos só essa areia que cai, cai e cai.

sábado, 8 de outubro de 2011

Tempo


Ela perguntou:
_Par ou ímpar?
As mesmas camisetas brancas, brancas no uso, brancas no clichê, brancas para dar espaço à cor, brancas para dar lugar à simplicidade rica. Os pés balançavam enquanto eles falavam sobre o fugaz e o eterno. Os dentes comungavam, ficavam livres das convenções.
Do corredor vieram dois rostos, eram os seus pais. Há tempos não os via, de fato, precisava da aprovação deles, da presença deles, daquele olhar de pai que adverte, mas protege, daquela mãe que estabelece as regras, mas faz uma sopinha, quando é tudo de que precisa para saber que o amor existe.
Estranharam aquela cena, a filha não costumava levar amigos em casa, nem colegas da escola para os deveres, namorados contáveis vezes. Quando chegava uma amiga, iam direto para o quarto e lá ficavam o tempo necessário para a escolha de uma roupa. Sequer as vozes eram percebidas, já que a música foi sua maior companheira de adolescência.
O mágico é que antes que pensassem em emendar típicas perguntas como “Você é filho de quem?”, esboçaram um sorriso ao sentir que Anna estava feliz.
Por um instante, duas mulheres provaram o mesmo sentimento, a que vivia e a que recordava. Não se sabe onde nem quando as duas se perderam, nunca se saberá se aquela Capitu era a mesma de Matacavalos. O caso é que ao se perder, ficaram perdidas também tantas sensações, tantas histórias, tantas lembranças. O filtro da memória atenuou alguns traços e, às vezes, torna-se difícil desenhar a linha de um rosto já familiar ou essas mesmas linhas não se juntam deixando a imagem clara.
Clara como a camiseta branca que o rapaz usava, ele que a trouxe de volta, que foi e é sua alegria, que passeia pelo tempo como uma obra de Shakespeare, às vezes meio bobo, às vezes meio poeta.
Ele respondeu:
_Par.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Silêncio


Não caminhei, portanto não caí.
Não caí, portanto não tenho pontos na cabeça,
nem tenho uma foto pra mostrar.
Ao contrário, pode olhar dentro de mim,
na minha alma, 
rasgar minha couraça,
cortar meus pulsos,
fazer o que quiser.
Lá, verá meu eu
e meu eu olhará para você
só pra dizer o que sente
quando nenhuma palavra é o bastante.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Nascimento


E a vida veio.
E eu preciso escrever!
Preciso contar a todos que a vida chegou
e que ela faz sentido mesmo quando não há sentido algum.
Isto é mágico. Este momento é vivo.
Ele clama, quer ser exaltado.
Seja pra mostrar a dor, seja pra escancarar o amor,
seja pra falar sobre a dor de amar ou
simplesmente pra respirar através do ar das palavras,
buscar a tranquilidade de dizer, de sentir a liberdade,
de colocar o coração e as vísceras numa mesa, vale.
Curvem-se – a vida nasceu.
Nasceu ontem também, mas hoje é melhor
e só perde pra amanhã.
É que, senhores, ela não pede licença.
Eu me curvo, sorvo e agradeço,
pelo sol que derrete minha melancolia,
pela chuva que limpa minha solidão,
por ser setembro e
pelo vinte de setembro.