quarta-feira, 11 de julho de 2012

Estradas



I
Caminhava, caminhava. O vento seguiu desde o princípio os meus passos. Eu e o vento éramos amigos, ele me empurrava para o mundo, porque eu era franzina, frágil, magricela e o corpo custava a obedecer ao que mente queria. E como queria se atirar!
Aquele era um caminhar de audácia, de mudar a tradição, de vanguarda – a inspiração para a independência.
II
O vento soprou e meu cabelo cresceu, minhas pernas também. Senti medo, fiz escolhas, disse adeus. Quando olhei, encontrei o que procurava e meu amigo se tornou brisa que refresca e acalma.
Aquele era um tempo de ganhar, abrir o baú e guardar o prêmio para conservar a vida – hora de ser livre. Amém.
III
Um rodopio me trouxe de volta para que eu pudesse ver o que eu nunca vi, perto-longe de mim. O ar secava as roupas cheirosas no varal das manhãs.
Aquele era um tempo de parar e um ventinho quente acariciou meu rosto, enquanto eu esperava pelo resto da vida, pintando simultaneamente dois quadros.
IV
Uma rajada me atirou e conheci outra estrada, mas a velocidade esqueceu-se de me trazer inteira e deixou partes de mim em outra trilha. Desfiz-me.
Aquele era um caminhar de busca, me confundi, me perdi, não sou. Roubei partes de mim em outros eus. Há partes de mim em tantas estradas e é de joelhos que me procuro – tempo de dor.

sábado, 19 de maio de 2012

Água


_ Eu te amo.

Ela pensou: Por quê?

            Olhava para si mesma e não encontrava a resposta, transbordava imperfeições, medos, lamentos, culpas. Culpas – era definitivamente culpada por espiar a alegria, definitivamente fora da regra. 

            Um amigo, por certo, pediria para ela parar de racionalizar. Ama e pronto! Seria o comentário dele. Pelo menos era bom pensar que um amigo diria algo, passara tanto tempo em profundo silêncio, na mais minguante solidão, que imaginava como teria conforto ao ouvir a própria voz organizando os pensamentos turvos e desconexos. 

Nessa mesma divagação, lembrou-se de um rio, ironicamente chamado Turvo, onde quase caíra certa vez, não teria chance sem uma velha mureta de proteção, não sabia nadar. Foi então que decidira aprender, sempre fazia isso, procurava uma solução para afastar o medo de não se dominar. Repetiria a estratégia diante do outro Rio que a atraía, contudo tinha a lembrança maravilhosa de um empurrão na piscina. Lembrou-se do riso, da liberdade, da sensação, do azul, mas sabia que quando precisasse, poria os pés no chão.

_ Eu te amo.

Ela respondeu:

_ Obrigada. Hesitante, tímida, racional, completou: Eu também.

domingo, 15 de abril de 2012

Divã




Lá estava Clarice, diante dele, intimidada, carente, necessitada, disfarçada. Aquele divã seria sua última cartada antes da loucura, antes de se fechar o passaporte da sanidade.
Nunca esteve tão sozinha, tão perdida... E aquele desconcerto que poderia ser uma resposta ou, quiçá, uma saída, sussurrava para ela como precipício.
Rompia seu coração e golpeava outros mais frágeis e isso, sílaba a sílaba, silêncio a silêncio a golpeava e deixava cicatrizes fundas e tão delimitadas que pareciam tatuagens de dor, uma dor com face.
Sua mente passeava por tantos filmes, por tantos livros, por tantas letras de música que havia perdido a noção do que era seu, as vozes e as palavras a confundiam e ela caía como as cartas de um baralho num jogo sem vencedores.
A luz a incomodava, a escuridão a oprimia, a penumbra não a escondia e tornava a cair. Levantava cambaleando, procurava uma lembrança que lhe dissesse algo sobre si mesma. Não se sabia. Pouco sabia e o muito que sabia a afastava da matilha. Ela queria não queria voltar. Precisava.
Estava exausta, exaurida, extenuada. Não cria. Não cria no Amor. Ficou sem resposta diante da pergunta do amigo: “Se você não crê no amor, crê em que então?” Não cria.
Não tinha fé no sentimento, nem na eternidade do sentimento, sequer na força dele. Não o desenhava com os rotineiros traços. Rotineiros trapos são os seres.
Diante do divã, estatelou, se estilhaçou. Não se sentou. Ainda não se sentaria.

sábado, 7 de abril de 2012

Margarete

            Aquelas vozes destoavam da sua rotina, o som um pouco mais alto poderia desconcertar os vizinhos, talvez eles nem notassem, mas para ela era um estranhamento só. Olhava como espectadora e desconfiava de que aquilo pudesse ser felicidade, contudo seu interior dizia que não, era só alienação, um desejo de tornar aquelas vidas menos tristonhas e vazias.
            Bebeu um gole, outro e gota a gota se sentiu mais atriz do que já era forçada a ser, passou a não registrar as palavras, não que estivesse entorpecida, apenas examinava os gestos, como de costume. Seria possível comprar vida envasada, eles realmente acreditavam nisso?
            Deu graças quando saíram, procurou o banheiro, mais pela certeza de estar só um momento do que pela tranquilidade que o chuveiro sempre lhe dera. Já fizera isso tantas e repetidas vezes na vida, que suspeitava não ser surpresa para os outros, sobretudo para o seu maior observador.
            Na hora de deitar, o mesmo constrangimento de inumeráveis noites, o desejo de receber um carinho desinteressado havia adormecido e dava-se por satisfeita quando não precisava ouvir lamentos, recomendações ou advertências.
          Pela manhã, o pedido de abraço vinha acompanhado de obscenidades ao ouvido, tão conhecidas e cansativas que desta vez ela virou o corpo abruptamente e fez claro um “Ai que nojo”, ainda assim ele quis que a frase fosse repetida, ela o fez e surpreendentemente ele insistiu na abordagem, suspeitou que o sofrimento dela o estimulasse. Repeliu-o com o resto do alfabeto e ficou lá, aliviadamente só, pensando no quanto aquele ruído da ré do carro a deixava feliz e livre.
            Na cama, ainda havia o cheiro. Mesmo trocando várias vezes de perfume, Marga não gostava de nenhum, não se sentia atraída por odor algum, ainda que estivessem juntos na loja, no ato da compra, e parecesse lá um tanto agradável, não prolongava esse efeito em casa. Seu nariz não queria, seu eu não queria, precisava esperar pela ordem de alguma lei de Darwin para querer estar próxima.
            Era difícil desejar alguém se precisava pagar pelas camisinhas que usaria e pagaria sempre para que não houvesse mais nenhum motivo que os prendesse. Era muito laço pra pouca vida.
            Desviou o pensamento, fez uma lista de coisas que lhe dariam prazer, todas simples, todas palpáveis, ficou contente por ainda sentir. Procurou companhia, não encontrou. Vestiu o tédio habitual, fez o sinal da cruz e viu avidamente o saca-rolha girar. Girou.

             

sábado, 31 de março de 2012

Esquecimento



Bocas mudas, olhares mudos, mudez total
Mente surda, gente surda, gente surdamente
Há uma passarela bonita bonita
Ilusão – ela é de vidro fininho fininho
Inho inho como um pov...

Procurando uma corda
Lá vou eu
Caminho. Caminho e levo na mão um segredo:
Psiu!
Sem ele não chego, sem ele não há motivo pra chegar.

Ignoro a turba
Não me desvio
Há sombras e braços e vozes
Tento não me desviar
Conheço a extremidade.

Lá está meu reflexo
Dele não fujo
Não posso fugir de mim
Sorrio orgulho
Saúdo meus pés

Ainda sei, ainda sou
Ainda sinto, ainda confio
Só a felicidade não me sabe
Esqueceu-me a felicidade
Como é?

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Capa

Quem disse que invisibilidade é poder?
Enfraqueço a cada dia.
Procuro sua voz num vídeo antigo, procuro sua voz no meu ouvido, ouço uma reprimenda.
Dilacero-me com minhas palavras ácidas e carregadas de amargura.
Quero calar-me. De mim só escapam frases cortantes que retornam depois de voltas e voltas numa consciência confusa e chorosa.
Uso tão bem as palavras dos poetas...Ironia.
Busco seu olhar e está sempre de lado.
Contempla outros sorrisos, outras cores, outras aventuras, outras desventuras.
Para mim, o soslaio – descrente e cansado.
Aborreço-me pensando, só, diante dos que nunca me viram.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Adendo

     A parte mais complicada  é dizer quem você é. Mora tanta gente aqui neste espelho...

     A verdade, às vezes, é bem sem graça, mas é só com ela que eu sei me virar.

     Em algumas horas, minha vida vai entrar pela porta e dizer algo bem banal, mas vai ser o máximo.

     Mais quinze segundos de conversa e eu diria. Experimentar a paz de espírito é algo extraordinário.

     Quem foi o filho de uma boa mãe que inventou esse negócio de 100%? Não dá pra atingir...

     Ser feliz é um exercício.

     Todos os dias pedem uma personagem diferente. Go play!

     Mais um daqueles dias de script. Adoro improviso...

     O difícil é ter disciplina, enfrentar-se. O resto eu resolvo.

     É fácil amar um bicho preso. Espere até eu conseguir abrir esta jaula...

     Quando vejo o povo delirando, começo a adorar a realidade.

     Quando sobra tempo pra mim, eu... Nunca sobra tempo pra mim.

     Começou a clarear e o que vi foi muito feio.

     Então, quando eu crescer, vou mandar na minha vida.  Como foi que eu caí nessa?

     Odeio a burrice, principalmente a que mora em mim.

     Não me sentia tão sozinha quando estava comigo mesma.

     E quando a morte é por dentro? Pensar, pensar, pensar até enjoar, quando a dor achar que me venceu, levantar.

     Trancada no quarto, debaixo dos cobertores, com os olhos cobertos de lágrimas, não dá pra ver que o problema é pequeno.

     Fui sua amiga, você nunca foi meu amigo, apenas o meu amor.

     Quando eu mais precisei, a solidão me acompanhou.

     Escrever é uma libertação.

     O amor puro é medido nessas horas. O meu é.

     Eu é que não saio desse carrossel, sempre amando, amando...

     Nasci com pernas, não com raízes.

     O amor é o meu remédio - com efeitos colaterais.