1º Ato
Ela descobre que o corpo é uma boca. Pensa na capa de um livro de Drummond e abraça uma estrofe:
“Meu corpo não é meu corpo,
é ilusão de outro ser.
sabe a arte de esconder-me
e é de tal modo sagaz
que a mim de mim ele oculta”
Não sabia, nunca soube que poderia dizer tanto para tantos sem uma letra. Foi a primeira vez que ultrapassou o papel e a tinta para reverenciar um mestre: seu baile de debutante foi Shakespeare. A noite não era de verão, mas estava inundada de vida e no ermo da pista se sentiu acompanhada.
Passeia pelas páginas e não descobre mais – só uma dedicatória.
2º Ato
Volta-se para a dedicatória de 1989, começa com “Como podemos nos perder de vista” e termina com “caso contrário não te presentearia com Carlos Drummond de Andrade”.
Só pensou nele, não na pessoa que lhe dera o livro, no sentimento, na ausência, só neste que não abandona seu pensamento e soube que mais uma vez a linha reta a afastaria de alguém.
3º Ato
Veio a alegria de ver rostos entendendo o indecifrável, veio a preocupação de ver tantos olhos devassando a alma, veio o conforto de saber que mais almas compartilham.
Fixou os olhos nele e soube que algo havia se quebrado, se rasgado. Estava calmo demais, impassível demais, natural demais. Meu coração disparou foi a frase dele, envolvida num gesto desajeitado, com a mão dela ao contrário. Pra sentir o movimento, é preciso usar a palma, qualquer um saberia, sobretudo ele, tão perspicaz. Ele não. Denúncia do que seria o resto do dia.
4º Ato
Nunca mais parou de bater e ela ficou atônita, camuflada em sua taurina vitalidade. Eram os mesmos impulsos, diferentes impulsos, eram as mesmas paixões, paixão de dor, paixão de doer. Pupilas dilatadas, nem precisava de médico. Sim, um médico, por favor! Olhe aqui o sangue, é sangue mesmo, não é merthiolate. O corpo falou outra vez. O nome disso é carinho. É só o que se pode fazer... e amar e querer bem.
5º Ato
Chama-se ato quando não há ação? Quando não se pode agir? Quando só se pode oferecer a presença? Pulou essas. A outra resposta veio como cortesia pelo dia, ia, ia...É preciso escolher bem e depois dizer: Eu te amo. Totalmente clichê. Graças a Deus.
Nenhum comentário:
Postar um comentário