E o olhar de menino chamou o menino de outros tempos, aquele que vive guardado e de quando em quando vem nos salvar, nos defender da lâmina da rotina, vem nos redimir dos erros maduros, vem nos confidenciar a essência do que realmente somos.
Percorreu com seus olhos ternos - olhinhos - todo o espaço, pensou em como parecia maior aquele encantado cenário num tempo em que suas pernas e seus braços eram grandes o bastante para pedir um colinho, um doce, um minuto de majestade. Refletiu sobre as mudanças feitas, na estúpida modernidade que tira a poesia das coisas simples.
Não havia o som cordial dos bons-dias, em seu lugar uma música, dessas comerciais que inibem uma boa conversa e fazem com que a melhor companhia se torne distante. Não mais o cheiro do pão, pão que nos livra do mal - amém, só o prato rápido que rápido nos tira de um lugar porque não temos tempo a perder com a felicidade.
O ambiente mudou. O bom dia mudou. O menino mudou. Só ficou o que ele tem de melhor: a lembrança, sua capacidade de senti-la e a sensibilidade para exprimi-la. Guardaria dali a bela imagem de seus brancos e longos dedos deslizando pelos cabelos de sua mãe, dando a ela a calma de que ainda precisa, e a molecagem de um chiclete grudado nas madeixas. Levaria na memória alguma brincadeira inventada, talvez um esconde-esconde por trás das prateleiras ou o sabor açucarado de um confeito difícil de comprar. Manteria no coração um nome de lugar, longínquo demais para os pés do garotinho, mas atingíveis para os do bravo cavaleiro, como Itália, Espanha ou França.
Seria sempre assim, encontrou a chave. Logo que houvesse vontade ou necessidade buscaria cavalos cujos nomes nem mais pudesse recordar, aspiraria o cheiro do café do campo, pintaria mais uma vez os bichinhos do jardim e caso não fosse suficiente, melhoraria as próprias lembranças, criando lendas sobre figueiras que se entrelaçam.
Passaria a ser o roteirista e o herói de suas histórias, salvaria mocinhas delicadas e mascaradas, elevaria o mundo com sua espada de sonhos, seu nariz del Quijote e sua voz de embalar, faria com que até os mais fortes lhe pedissem um colinho ou um doce, quiçá um minuto de majestade, se tornaria o pão.
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