sábado, 8 de outubro de 2011

Tempo


Ela perguntou:
_Par ou ímpar?
As mesmas camisetas brancas, brancas no uso, brancas no clichê, brancas para dar espaço à cor, brancas para dar lugar à simplicidade rica. Os pés balançavam enquanto eles falavam sobre o fugaz e o eterno. Os dentes comungavam, ficavam livres das convenções.
Do corredor vieram dois rostos, eram os seus pais. Há tempos não os via, de fato, precisava da aprovação deles, da presença deles, daquele olhar de pai que adverte, mas protege, daquela mãe que estabelece as regras, mas faz uma sopinha, quando é tudo de que precisa para saber que o amor existe.
Estranharam aquela cena, a filha não costumava levar amigos em casa, nem colegas da escola para os deveres, namorados contáveis vezes. Quando chegava uma amiga, iam direto para o quarto e lá ficavam o tempo necessário para a escolha de uma roupa. Sequer as vozes eram percebidas, já que a música foi sua maior companheira de adolescência.
O mágico é que antes que pensassem em emendar típicas perguntas como “Você é filho de quem?”, esboçaram um sorriso ao sentir que Anna estava feliz.
Por um instante, duas mulheres provaram o mesmo sentimento, a que vivia e a que recordava. Não se sabe onde nem quando as duas se perderam, nunca se saberá se aquela Capitu era a mesma de Matacavalos. O caso é que ao se perder, ficaram perdidas também tantas sensações, tantas histórias, tantas lembranças. O filtro da memória atenuou alguns traços e, às vezes, torna-se difícil desenhar a linha de um rosto já familiar ou essas mesmas linhas não se juntam deixando a imagem clara.
Clara como a camiseta branca que o rapaz usava, ele que a trouxe de volta, que foi e é sua alegria, que passeia pelo tempo como uma obra de Shakespeare, às vezes meio bobo, às vezes meio poeta.
Ele respondeu:
_Par.

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