sábado, 1 de janeiro de 2011

Passagem


Cai a noite na cidade
Vinda de lugar nenhum
E o dia vai embora
Indo pra lugar algum...

Não sentia fome
Não sentia frio
Sentado num canto
De um quarto vazio...

Sombras e pensamentos
De um sonho só esperança
Nas paredes ecoavam
O silêncio e a lembrança...

Cai a noite – Capital Inicial

                Nem foram tantos cumprimentos, um da caixa do banco, dois no supermercado, em resposta a minha tentativa de ser uma moça educada e uns três pela internet, esses exclusivos – dirigidos especialmente a mim - de seletos amigos, companheiros de uma época.
                Voltava para casa depois de uma fuga, era uma convencional festa de fim de ano familiar, dessas em que a última coisa que se vê é o conceito de família. Estava muito feliz simplesmente por saber que em poucos instantes estaria só, acompanhada pelo silêncio do meu quarto, alheia aos fogos de artifício tão insistentes. Tiraria aquela roupa, minha camisa branca dos bons momentos não merecia nem mais um segundo daquela hipocrisia, colocaria um chinelo, tomaria um suco e voltaria para meu livro, meu cúmplice era Shakespeare.
                O telefone tocou e já me irritei. Provavelmente era alguém da tal festa dando pela minha ausência. Sabia que não era meu filho, por duas razões: primeiro porque me conhece, me entende; depois, sei que ele próprio só permaneceu lá por estar protegido pela graça de Afrodite. Atendi e aquela sempre inusitada voz disse: “Estou na frente da sua casa, venha aqui me dar um abraço.”
                Saí e já comecei a ouvir os gritos e as risadas dela. Alertei com meu jeito casmurro e mordaz que tinha vizinhos. Minha amiga me abraçou e pronunciou o Feliz Ano Novo mais sincero dos últimos minutos do ano velho. Ano tão visceral da minha vida. Gostei de ver o sorriso das outras duas pessoas que estavam com ela, expliquei sinteticamente o motivo de estar ali sozinha, coisa que não os surpreendeu por saberem como sou.
                De repente, entre risos, ela dispara a pergunta fora do roteiro, queria saber o que achava da sua roupa, logo eu tão desligada das aparências, logo eu que me esforço para desdenhar a moda. Olhei bem e custei a fazer a um comentário, devo ter usado alguma frase irônica para substituir o tradicional: Oh, que linda! Eles se despediram, cheios de juvenis más intenções para a promissora noite e voltei para o meu refúgio.
                Pensei carinhosamente no gesto, naquelas pessoas, procurei a página certa e percebi o porquê da minha tardia resposta sobre o traje. Foi muito rápido, minha memória fez um giro e me vi, no único clube da cidade com as mesmas cores, com o mesmo olhar, com o mesmo riso. Notei que toda vez que pensava em mim numa comemoração de Ano Novo, lá estava eu com aquele tecido claro, perolado. Foi a última vez que me senti livre?
                Não consigo apontar o ano, apenas suponho os nomes de quem estaria comigo ali, mas me lembro claramente de mim. Estava livre das opressões dos pais e ainda era livre das opressões do universo adulto. Estava comigo. Meu rosto trazia a mesma inocência marota da menina que bateu à porta para me tirar da solidão. Senti saudade de mim, não falo dessas saudades tristes, mas daquelas nostálgicas que alimentam e fortalecem nossa identidade.
                Não sei como serão os próximos dias, os próximos meses, nem teria graça se soubesse, mas pela mais pura gratidão espero que os seus, minha amiga, sejam memoráveis.

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