Lá estava Clarice, diante dele, intimidada, carente, necessitada, disfarçada. Aquele divã seria sua última cartada antes da loucura, antes de se fechar o passaporte da sanidade.
Nunca esteve tão sozinha, tão perdida... E aquele desconcerto que poderia ser uma resposta ou, quiçá, uma saída, sussurrava para ela como precipício.
Rompia seu coração e golpeava outros mais frágeis e isso, sílaba a sílaba, silêncio a silêncio a golpeava e deixava cicatrizes fundas e tão delimitadas que pareciam tatuagens de dor, uma dor com face.
Sua mente passeava por tantos filmes, por tantos livros, por tantas letras de música que havia perdido a noção do que era seu, as vozes e as palavras a confundiam e ela caía como as cartas de um baralho num jogo sem vencedores.
A luz a incomodava, a escuridão a oprimia, a penumbra não a escondia e tornava a cair. Levantava cambaleando, procurava uma lembrança que lhe dissesse algo sobre si mesma. Não se sabia. Pouco sabia e o muito que sabia a afastava da matilha. Ela queria não queria voltar. Precisava.
Estava exausta, exaurida, extenuada. Não cria. Não cria no Amor. Ficou sem resposta diante da pergunta do amigo: “Se você não crê no amor, crê em que então?” Não cria.
Não tinha fé no sentimento, nem na eternidade do sentimento, sequer na força dele. Não o desenhava com os rotineiros traços. Rotineiros trapos são os seres.
Diante do divã, estatelou, se estilhaçou. Não se sentou. Ainda não se sentaria.
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