domingo, 15 de abril de 2012

Divã




Lá estava Clarice, diante dele, intimidada, carente, necessitada, disfarçada. Aquele divã seria sua última cartada antes da loucura, antes de se fechar o passaporte da sanidade.
Nunca esteve tão sozinha, tão perdida... E aquele desconcerto que poderia ser uma resposta ou, quiçá, uma saída, sussurrava para ela como precipício.
Rompia seu coração e golpeava outros mais frágeis e isso, sílaba a sílaba, silêncio a silêncio a golpeava e deixava cicatrizes fundas e tão delimitadas que pareciam tatuagens de dor, uma dor com face.
Sua mente passeava por tantos filmes, por tantos livros, por tantas letras de música que havia perdido a noção do que era seu, as vozes e as palavras a confundiam e ela caía como as cartas de um baralho num jogo sem vencedores.
A luz a incomodava, a escuridão a oprimia, a penumbra não a escondia e tornava a cair. Levantava cambaleando, procurava uma lembrança que lhe dissesse algo sobre si mesma. Não se sabia. Pouco sabia e o muito que sabia a afastava da matilha. Ela queria não queria voltar. Precisava.
Estava exausta, exaurida, extenuada. Não cria. Não cria no Amor. Ficou sem resposta diante da pergunta do amigo: “Se você não crê no amor, crê em que então?” Não cria.
Não tinha fé no sentimento, nem na eternidade do sentimento, sequer na força dele. Não o desenhava com os rotineiros traços. Rotineiros trapos são os seres.
Diante do divã, estatelou, se estilhaçou. Não se sentou. Ainda não se sentaria.

sábado, 7 de abril de 2012

Margarete

            Aquelas vozes destoavam da sua rotina, o som um pouco mais alto poderia desconcertar os vizinhos, talvez eles nem notassem, mas para ela era um estranhamento só. Olhava como espectadora e desconfiava de que aquilo pudesse ser felicidade, contudo seu interior dizia que não, era só alienação, um desejo de tornar aquelas vidas menos tristonhas e vazias.
            Bebeu um gole, outro e gota a gota se sentiu mais atriz do que já era forçada a ser, passou a não registrar as palavras, não que estivesse entorpecida, apenas examinava os gestos, como de costume. Seria possível comprar vida envasada, eles realmente acreditavam nisso?
            Deu graças quando saíram, procurou o banheiro, mais pela certeza de estar só um momento do que pela tranquilidade que o chuveiro sempre lhe dera. Já fizera isso tantas e repetidas vezes na vida, que suspeitava não ser surpresa para os outros, sobretudo para o seu maior observador.
            Na hora de deitar, o mesmo constrangimento de inumeráveis noites, o desejo de receber um carinho desinteressado havia adormecido e dava-se por satisfeita quando não precisava ouvir lamentos, recomendações ou advertências.
          Pela manhã, o pedido de abraço vinha acompanhado de obscenidades ao ouvido, tão conhecidas e cansativas que desta vez ela virou o corpo abruptamente e fez claro um “Ai que nojo”, ainda assim ele quis que a frase fosse repetida, ela o fez e surpreendentemente ele insistiu na abordagem, suspeitou que o sofrimento dela o estimulasse. Repeliu-o com o resto do alfabeto e ficou lá, aliviadamente só, pensando no quanto aquele ruído da ré do carro a deixava feliz e livre.
            Na cama, ainda havia o cheiro. Mesmo trocando várias vezes de perfume, Marga não gostava de nenhum, não se sentia atraída por odor algum, ainda que estivessem juntos na loja, no ato da compra, e parecesse lá um tanto agradável, não prolongava esse efeito em casa. Seu nariz não queria, seu eu não queria, precisava esperar pela ordem de alguma lei de Darwin para querer estar próxima.
            Era difícil desejar alguém se precisava pagar pelas camisinhas que usaria e pagaria sempre para que não houvesse mais nenhum motivo que os prendesse. Era muito laço pra pouca vida.
            Desviou o pensamento, fez uma lista de coisas que lhe dariam prazer, todas simples, todas palpáveis, ficou contente por ainda sentir. Procurou companhia, não encontrou. Vestiu o tédio habitual, fez o sinal da cruz e viu avidamente o saca-rolha girar. Girou.

             

sábado, 31 de março de 2012

Esquecimento



Bocas mudas, olhares mudos, mudez total
Mente surda, gente surda, gente surdamente
Há uma passarela bonita bonita
Ilusão – ela é de vidro fininho fininho
Inho inho como um pov...

Procurando uma corda
Lá vou eu
Caminho. Caminho e levo na mão um segredo:
Psiu!
Sem ele não chego, sem ele não há motivo pra chegar.

Ignoro a turba
Não me desvio
Há sombras e braços e vozes
Tento não me desviar
Conheço a extremidade.

Lá está meu reflexo
Dele não fujo
Não posso fugir de mim
Sorrio orgulho
Saúdo meus pés

Ainda sei, ainda sou
Ainda sinto, ainda confio
Só a felicidade não me sabe
Esqueceu-me a felicidade
Como é?

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Capa

Quem disse que invisibilidade é poder?
Enfraqueço a cada dia.
Procuro sua voz num vídeo antigo, procuro sua voz no meu ouvido, ouço uma reprimenda.
Dilacero-me com minhas palavras ácidas e carregadas de amargura.
Quero calar-me. De mim só escapam frases cortantes que retornam depois de voltas e voltas numa consciência confusa e chorosa.
Uso tão bem as palavras dos poetas...Ironia.
Busco seu olhar e está sempre de lado.
Contempla outros sorrisos, outras cores, outras aventuras, outras desventuras.
Para mim, o soslaio – descrente e cansado.
Aborreço-me pensando, só, diante dos que nunca me viram.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Adendo

     A parte mais complicada  é dizer quem você é. Mora tanta gente aqui neste espelho...

     A verdade, às vezes, é bem sem graça, mas é só com ela que eu sei me virar.

     Em algumas horas, minha vida vai entrar pela porta e dizer algo bem banal, mas vai ser o máximo.

     Mais quinze segundos de conversa e eu diria. Experimentar a paz de espírito é algo extraordinário.

     Quem foi o filho de uma boa mãe que inventou esse negócio de 100%? Não dá pra atingir...

     Ser feliz é um exercício.

     Todos os dias pedem uma personagem diferente. Go play!

     Mais um daqueles dias de script. Adoro improviso...

     O difícil é ter disciplina, enfrentar-se. O resto eu resolvo.

     É fácil amar um bicho preso. Espere até eu conseguir abrir esta jaula...

     Quando vejo o povo delirando, começo a adorar a realidade.

     Quando sobra tempo pra mim, eu... Nunca sobra tempo pra mim.

     Começou a clarear e o que vi foi muito feio.

     Então, quando eu crescer, vou mandar na minha vida.  Como foi que eu caí nessa?

     Odeio a burrice, principalmente a que mora em mim.

     Não me sentia tão sozinha quando estava comigo mesma.

     E quando a morte é por dentro? Pensar, pensar, pensar até enjoar, quando a dor achar que me venceu, levantar.

     Trancada no quarto, debaixo dos cobertores, com os olhos cobertos de lágrimas, não dá pra ver que o problema é pequeno.

     Fui sua amiga, você nunca foi meu amigo, apenas o meu amor.

     Quando eu mais precisei, a solidão me acompanhou.

     Escrever é uma libertação.

     O amor puro é medido nessas horas. O meu é.

     Eu é que não saio desse carrossel, sempre amando, amando...

     Nasci com pernas, não com raízes.

     O amor é o meu remédio - com efeitos colaterais.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Troca




Para RM

Meu coração é seco.
Com água e com a semente certa ele sorri dengoso.
Meu coração é seco.
Gosta de uma chuva de letrinhas caindo sobre ele.
Aguarda quietinho um afago.
Mas meu coração é seco.
Essa é a verdade que eu não vou esconder.
Não fede nem cheira.
Meu coração obedece. Serve a bondade de quem o respeita.


            Entrei naturalmente, desabei meus papéis naturalmente, cumprimentei naturalmente, sorri naturalmente - meu sorriso nunca foi comprado. Natural porque é assim que sei ser feliz ou pelo menos sei ser eu. Detesto convenções e escapando delas, dentre tantos atentos, sedentos e belos olhares, destaquei o seu. Fato é que não se limitava a olhar, ria com verdade, perguntava com verdade e crescia com verdade naquele grupo amado prontamente. Cresceu não é força de expressão, quando se levantou, olhei pra cima e pensei: Ela poderia casar com o meu filho.
Fui e voltei. Escrevi e apaguei. Hesitei entre poesia e prosa. A certeza ficou no título: Troca.
De você, minha amiga, recebi. Pra  você, entreguei. Não importa o que.  
Não economizamos elogios, confidências, amarguras, nem agradecimentos. O melhor é que nunca me agradeceu mencionando o que aprendeu comigo e eu nunca agradeci pela amizade que me confiou. Nós trocamos. Compartilhamos minutos singelos e sinceros de vida.



terça-feira, 15 de novembro de 2011

Bússola


Esqueceu-me o sorriso.
Nunca vi dias tão nublados.
É cinza que não finda.
É vento que me arrasta.
Essa é a verdade ou há um eclipse nos meus olhos? Meus ouvidos e minha percepção me traem ou o horizonte ficou turvo?
Dias cinzentos formam um redemoinho em volta de meu frágil destemido corpo e não sei mais discernir sobre onde está o Norte. Aliás, pra que o Norte?
Iria bem feliz pelo Sul se lá pudesse escolher o rumo dos meus passos, um zigue-zague aqui, uma pausa ali, uma disparada que fizesse os meus lábios tomarem forma de coração, é assim que eles ficam quando rio, se ainda me lembro.
O Oeste não me assusta, nem o Velho Oeste com seus índios vibrando línguas para intimidar os cowboys, nem com seus cowboys multiplicando tiros para intimidar moicanos e cherokees. Minha língua fere mais e lá descansaria muitas palavras ácidas numa estante bem empoeirada.
O Leste me é um passeio, buscaria nas ruínas do mundo minha essência adormecida, buscaria muitas explicações entre os sábios gregos, minha pureza num pueblo e deixaria minha melancolia pendurada num varalzinho em alguma viela. Esperaria o Calor que me encontraria, aqueceria meu peito, encostaria minha cabeça e me apertaria enquanto soluço. Forte, forte, tão forte, até que eu não tivesse mais motivos para sofrer.
Eu olharia grata, procuraria sua face para retribuir com um beijo e caminharia para qualquer parte, porque com ou sem o impassível cinza, eu estaria comigo, seria mia senhor.