sábado, 19 de fevereiro de 2011

Amor




E ele bate
Bate no meu peito
Bate na minha cara
Bate na minha alma
Im – po – ten – te: Pá!
Seria preciso mudar a lei, a órbita, a rotação...
Eu queria mudar a lei, a órbita, a rotação...
Rasgar um sorriso na sua cara
Arremessar uma faísca nos seus olhos
Ser a brisa que adoça seu cabelo
Lamber a lágrima que cai e provar que ela pode ser doce
Desaguar o rio dos meus olhos e ainda ser forte
Pra te carregar
Pra te ninar
Colocá-lo no meu ventre e afastar a dor
Cantarolar o amor
Contar uma história
Sentar no chão e inventar a vida
Viver ainda uma vez
A pausa no tempo
Anotar um poema que você nem sabe que criou
Alargar a estrada
Construir uma ponte
Virar e ir pela esquerda
Olhar pra direita e também sorrir
E enquanto colo os caquinhos
Veja
Ouça
Ele bate
Bate
 É o seu ritmo
É a sua música
É sempre por você.
 



sábado, 8 de janeiro de 2011

Sabiduría



“Cuando halléis en mis palabras una nota segura, firme, sabed que estoy enseñándoos algo que he aprendido del pueblo.”
Antonio Machado      

            José Latinoamericano llegó con sus maletas y mucha curiosidad, quería conocer lo que estaba del otro lado del Atlántico.
            Madrid, Madrid, Madrid, siempre tuvo miedo de ciudades grandes, se quedó nervioso.
            La guía necesita de un párrafo especial, se llamaba Encarnación, encarnación de Franco supongo yo, porque quitó la paz del “guiri”, quitó su placer de ver a Guernica, además creo que ella ni conocía la palabra placer.
            En el Palacio Real, se enfadó muchísimo al ver las riquezas de su tierra convertidas en objetos de cocina de los reyes. Sabía que algunas de aquellas piezas podrían saciar el hambre de su gente. Años de esclavitud convertidos en copas de vino…
            De repente pensó en los artistas anónimos que trabajaron allí, en los hombres que salieron de sus pueblos para hacer aquellas maravillas de oro, plata, porcelana y se olvidó un poco de su enfado.
            Decidió conocer las provincias de León y Castilla. Asustado con las gárgolas, con el oscuro de las iglesias, con los muertos bajo sus pies; escaleras y pasillos misteriosos oprimían su corazón latinoamericano. José se acordaba de una película antigua donde un joven preguntaba a su maestro, William de Baskerville, si a Dios le gustaba un sitio como aquel; la respuesta fue no.
            En aquel momento, quería saber quien había hecho aquellas esculturas o como volaron los pintores para poder dibujar el cielo en el techo al mismo tiempo tan cerca y tan lejos de las nubes.
            José Latinoamericano, cansado de paredes frías y doradas ropas de curas, buscó el flamenco. Cerró sus ojos para escuchar la guitarra, su alma parecía volver a su cuerpo, el mismo cuerpo que se llenó de llamas cuando la danzarina se marchó al son de “no puedo vivir sin ti”. Él deseaba, con ganas, un beso, un gran beso apasionado. Estaba solo, tan pequeño… El beso jamás vendría, el pobre era sólo un muchacho latinoamericano. Necesitaba tanto oír su nombre de una boca sincera, pero oyó aplausos y se puso realmente contento por el espectáculo.
            Continuó viajando por iglesias, palacios, castillos y murallas, aunque lo más interesante siempre fuera ver a las personas, la señora sonriendo en la ventana en Ciudad Rodrigo, el señor simpático en Miranda y los campesinos todo el tiempo peleando con el sol en medio a las plantaciones.
            Al final de su viaje, estaba en Cuellar. Invitado a entrar en otra iglesia, fue caminando despacio. Allá no había sillas ni bancos. Se sentó en la alfombra roja y esperó. Era un sitio diferente, sin retablos, imágenes o cruces, solamente había luces, voces y música; todo eso era para decir al hombre latinoamericano, al sencillo José, que aquel lugar se construyó para la comunidad, tan distinta, tan igual, hombres y mujeres deseando unión y paz, deseando ver a sus hijos creciendo sin temores.
            Fue la primera vez que José encontró a Dios en este país, sabía que ahora podría volver a su casa llevando en su pecho una palabra que los españoles deben descubrir: saudade.
(España, 2004)
                                      

sábado, 1 de janeiro de 2011

Passagem


Cai a noite na cidade
Vinda de lugar nenhum
E o dia vai embora
Indo pra lugar algum...

Não sentia fome
Não sentia frio
Sentado num canto
De um quarto vazio...

Sombras e pensamentos
De um sonho só esperança
Nas paredes ecoavam
O silêncio e a lembrança...

Cai a noite – Capital Inicial

                Nem foram tantos cumprimentos, um da caixa do banco, dois no supermercado, em resposta a minha tentativa de ser uma moça educada e uns três pela internet, esses exclusivos – dirigidos especialmente a mim - de seletos amigos, companheiros de uma época.
                Voltava para casa depois de uma fuga, era uma convencional festa de fim de ano familiar, dessas em que a última coisa que se vê é o conceito de família. Estava muito feliz simplesmente por saber que em poucos instantes estaria só, acompanhada pelo silêncio do meu quarto, alheia aos fogos de artifício tão insistentes. Tiraria aquela roupa, minha camisa branca dos bons momentos não merecia nem mais um segundo daquela hipocrisia, colocaria um chinelo, tomaria um suco e voltaria para meu livro, meu cúmplice era Shakespeare.
                O telefone tocou e já me irritei. Provavelmente era alguém da tal festa dando pela minha ausência. Sabia que não era meu filho, por duas razões: primeiro porque me conhece, me entende; depois, sei que ele próprio só permaneceu lá por estar protegido pela graça de Afrodite. Atendi e aquela sempre inusitada voz disse: “Estou na frente da sua casa, venha aqui me dar um abraço.”
                Saí e já comecei a ouvir os gritos e as risadas dela. Alertei com meu jeito casmurro e mordaz que tinha vizinhos. Minha amiga me abraçou e pronunciou o Feliz Ano Novo mais sincero dos últimos minutos do ano velho. Ano tão visceral da minha vida. Gostei de ver o sorriso das outras duas pessoas que estavam com ela, expliquei sinteticamente o motivo de estar ali sozinha, coisa que não os surpreendeu por saberem como sou.
                De repente, entre risos, ela dispara a pergunta fora do roteiro, queria saber o que achava da sua roupa, logo eu tão desligada das aparências, logo eu que me esforço para desdenhar a moda. Olhei bem e custei a fazer a um comentário, devo ter usado alguma frase irônica para substituir o tradicional: Oh, que linda! Eles se despediram, cheios de juvenis más intenções para a promissora noite e voltei para o meu refúgio.
                Pensei carinhosamente no gesto, naquelas pessoas, procurei a página certa e percebi o porquê da minha tardia resposta sobre o traje. Foi muito rápido, minha memória fez um giro e me vi, no único clube da cidade com as mesmas cores, com o mesmo olhar, com o mesmo riso. Notei que toda vez que pensava em mim numa comemoração de Ano Novo, lá estava eu com aquele tecido claro, perolado. Foi a última vez que me senti livre?
                Não consigo apontar o ano, apenas suponho os nomes de quem estaria comigo ali, mas me lembro claramente de mim. Estava livre das opressões dos pais e ainda era livre das opressões do universo adulto. Estava comigo. Meu rosto trazia a mesma inocência marota da menina que bateu à porta para me tirar da solidão. Senti saudade de mim, não falo dessas saudades tristes, mas daquelas nostálgicas que alimentam e fortalecem nossa identidade.
                Não sei como serão os próximos dias, os próximos meses, nem teria graça se soubesse, mas pela mais pura gratidão espero que os seus, minha amiga, sejam memoráveis.

sábado, 27 de novembro de 2010

Angústia



         O nome desta fonte é andalus, assim mesmo, com s. Queria que fosse com z, queria conhecer a Andaluzia, queria estar lá, queria ver se lá veria o que quero tanto ver e mais: deixaria de ver o que tanto vejo.
         Estou exausta. Meu sangue claro sangue é a clarividência da minha exaustão e o dicionário infeliz e mordaz assim retruca “(O amor) de todos os sentimentos humanos, é o único que não se exaure.” Então não irei à Espanha, não buscarei vestígios de Lorca. Lorca está aqui bailando em tantas bodas de sangre, bailando em minha diminuta alma. Alminha indefesa.
         Ouço palmas místicas e fervorosas na calçada, insistem, eles querem minha alma e uns trocados. Talvez devesse mostrá-la...Eles ficariam chocados, eu ficaria na paz da alienação consentida. Bobagem, nunca fui de escolher o fácil. A frase derradeira, entre risos, na aula de italiano era “Se eu não me matar, qual é a razão de viver?”
         Não era para me lembrar, me custa dizer, já está na boca – Tu mi manchi. Você me faz falta. O golpe na língua de Petrarca. Deve ter sido mais simples para ele, tomado pelo racionalismo que me abandona, era mais feliz. Era mais feliz? Eu não era feliz e não sabia...
         Sei que nesta busca, buscarei menos e me alimentarei mais. Sentirei mais a chuva domesticando meu cabelo, o sol das seis no retrovisor, as primeiras palavras da menininha, as cordas do sábio violão, o afago desinteressado, o elogio das bocas sonhadoras, os sons da minha casa e as palavras dos mestres da Literatura, minha traidora companheira.
         Querer menos é muito difícil, desde agora é minha escolha.
        

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Abraço



ABRA
ABRA-O
ABRA O AÇO
RASGUE
CORTE
DESPEDACE
ABRA-SE
ABRASSE

            Era lacuna. Era. Era um toque só. Só um toque, viu? De quem acha que vale um... só, só os olhos, só um riso – sorriso – só a terra, o cheiro da terra.
            Quando nada mais diz nada mais, só sinta o que vale. Ceda à água que mata a sede, ceda ao que Freud não explica, ceda ao apelo do que é simples, doce e terno, eterno, como um abraço silencioso, cheiroso, zeloso. Vale escolher de quem, porque afinal é tudo o que importa para combater a solidão que assola e desconsola, nessa imensidão árida e fértil das falsidades e das voluntárias cegueiras humanas.
            Quando era só eu e o espelho, quando era só eu e a minha face tudo era mais difícil. Minha face. Minha face conta a história de quem vive de contar histórias de quem tem muita história pra contar. Gosto dela, expressiva, autêntica, destemida, destemida a ponto de ousar conhecer o que é o outro e sentir essa tal felicidade. Abraçar. Dividir. Multiplicar. Compartilhar. Reconhecer. Reconhecer-se.
            E deve ser hora de dizer obrigada. Obrigada por sua mão que tocou a minha, por sua risada que abriu meu rosto, pelo minuto que você esticou para ficar comigo, pela tarefa que você não cumpriu para ficar ao meu lado e, principalmente, por não me cobrar nada disso e ainda ser feliz.
            Estranho. Diferente é agradecer, se entregar, fazer o simples quando o simples é tão complicado. É exatamente o necessário, o imprescindível a fazer para delimitar quem somos e quem são os que nos cercam e nos merecem, merecem nosso abraço honesto e profundo. Para saber que somos apenas e tudo isso, que tudo isso vale a pena. Só isso.


terça-feira, 2 de novembro de 2010

Tristeza

Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo tempo tempo tempo
Caetano Veloso

Tristeza

            Será que duas pessoas que não se entendem podem se entender?
            Tempo, tempo, tempo...
            Ela era uma das preferidas, sempre há alguém assim, não sei se é o olhar que oferece abrigo ou a capacidade de usar as palavras certas, mas sempre há alguém e, neste momento, ela era uma das preferidas. Não fosse isso, não teria a audácia sorrateira de arremessar “eu sei por que trata bem o...”. Antes de perguntar de onde teria vindo aquela ideia, interrompi listando todos os motivos que ela não buscava, quando revelou “você foi namorada do pai dele”. Respirei e corrigi dizendo que não chegou a ser um namoro, mais uma vez o golpe “mas você foi o grande amor da vida dele”. Respirei e sorri.
            O fato é que, entre uma coisa e outra, há um intervalo que supera vinte anos. Não muda nada hoje, não gera reflexões de como poderia ter sido, não vira novela da linha valeapenaverdenovo, não é isso. Fico pensando nas grandes vantagens que o ser humano encontra em sonegar sentimentos e a resposta é óbvia – vantagem nenhuma.
            Muita gente já se atreveu a falar sobre o tempo, eu não, nem o farei. Simplesmente tento responder a pergunta de um amigo. Por que está triste? Não fui capaz de organizar os pensamentos e formular uma explicação, entendo apenas que o meu mal, mal do ser, seja não realizar o que busca e se angustiar com o irrecuperável, para citar Vinícius “o tempo do amor é que é irrecuperável”.
            Confessei o meu. Confessar é um bom verbo para crimes, amar pode ser um? Eu não entendo, não me entendo, ele também não, é assim que nos entendemos – um encaixe perfeito em condições imperfeitas. Sei é que não esperei vinte anos e minha tristeza ficou menor, menor, mas existe. Existe porque esse amor que ensina, me ensinou a encontrar vida em mim, vida até então ligeiramente morna, de alguém que se preparava para envelhecer. Viver é perigoso em qualquer vereda.