terça-feira, 6 de setembro de 2011

Silêncio


Não caminhei, portanto não caí.
Não caí, portanto não tenho pontos na cabeça,
nem tenho uma foto pra mostrar.
Ao contrário, pode olhar dentro de mim,
na minha alma, 
rasgar minha couraça,
cortar meus pulsos,
fazer o que quiser.
Lá, verá meu eu
e meu eu olhará para você
só pra dizer o que sente
quando nenhuma palavra é o bastante.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Nascimento


E a vida veio.
E eu preciso escrever!
Preciso contar a todos que a vida chegou
e que ela faz sentido mesmo quando não há sentido algum.
Isto é mágico. Este momento é vivo.
Ele clama, quer ser exaltado.
Seja pra mostrar a dor, seja pra escancarar o amor,
seja pra falar sobre a dor de amar ou
simplesmente pra respirar através do ar das palavras,
buscar a tranquilidade de dizer, de sentir a liberdade,
de colocar o coração e as vísceras numa mesa, vale.
Curvem-se – a vida nasceu.
Nasceu ontem também, mas hoje é melhor
e só perde pra amanhã.
É que, senhores, ela não pede licença.
Eu me curvo, sorvo e agradeço,
pelo sol que derrete minha melancolia,
pela chuva que limpa minha solidão,
por ser setembro e
pelo vinte de setembro.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Identidade


Camisa xadrez, bermuda, barba, um corte de cabelo diferente. Abriu o portão com familiaridade, passou pelo cachorro placidamente, limpou os pés no tapete, entrou antes de mim e completou, de soslaio:
_ Limpe bem os pés, não quero que suje a casa. Sorriu como garoto.
A casa era minha. Cheguei um segundo depois deles, vinha da minha aula de italiano e ainda tinha na boca os sons doces de palavras como uscire, caminamo, Brescia; no cabelo umas simpáticas gotas de uma garoa e no coração... Deixemos de lado o coração.
Preparei um chá para mim, sempre gostei da bebida, mas na minha caneca nova, presente especial, o sabor era bem melhor. Enquanto sorvia meu Black Tea alemão, outra excentricidade patrocinada por uma amiga viajante, ouvia as vozes deles no quarto. Falavam sobre música e trocavam as cordas de um belo violão folk; adoravam aquilo, era o que lhes dava vida. Confesso que cheguei a ter ciúme do instrumento, achava que meu filho gostava mais dele do que de mim. Neuroses elementares de mãe, passageiras, duraram apenas até reconhecer nos olhos dele a jovem alegria que eu mesma vivi por tantas outras razões e pelo diminuto momento de conter o meu absoluto orgulho ao ver seu talento.
Senti as notas e pensei em quanto tempo fazia que eu conhecia o outro rapaz. Vi um garotinho escondido atrás de um violão cantando sozinho o Sozinho, moda na ocasião, graças à doçura de Caetano Veloso, quando meninos não tinham vergonha de assumir seus gostos impopulares – Música Impopular Brasileira, nas palavras de Júlio Medaglia.
Cantara num festival de música organizado por mim, uma celebração mágica da arte e da juventude, quando esta não tinha vergonha de ser mágica nem de celebrar a arte. Ouvi os aplausos, senti a energia do público, escutei a voz do apresentador e esbarrei nas minhas palavras no discurso de abertura. Tive saudade de mim, de ser plena, de ser autônoma, de poder, de como eu era capaz de transformar: pessoas.
Fui a meu bagunçado e adorável escritório, abri uma das portas da minha estante, primeiro item da casa nova, e peguei sem errar uma pasta preta com uma legenda: Festival de Música. Deslizei passos sonhadores até o quarto e sorrindo perguntei ao meu filho: Conhece? Ele retribuiu com aqueles dentes que eu desenhei e mostrou ao amigo.
Ao sair do quarto, senti o riso saudoso do outro ao se ver e sei que ele percebeu que participei da sua história. Não sei se entendeu o quanto participou da minha, principalmente do meu presente, modificado naquele instante de ternura. Instante em que voltei a ter orgulho de ser o que sou.




quinta-feira, 14 de julho de 2011

Herencia



Me he convertido en mi padre,
su mirada lejana cuando la quiere,
su melancolia, su seriedad.
No logré repetir sus cualidades,
tampoco  sus defectos.
Sigo mi vida con la cabeza al aire,
los ojos fuertes.
De mi madre llevo la resignación callada
de las heroínas del día,
de las reinas de la rutina.
No traigo su belleza,
tampoco sus contradicciones.
De los dos recibí
los pies para caminar
mi ruta de soledad,
mi silencio.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Nada


O que preenche o espaço do nada,
se o nada é o nada?
E se é o nada,
por que ocupa tanto espaço?
Por que afugenta, oprime, dilacera?
E o que estava no lugar do nada,
antes de o nada ser o nada?
“O bem que você me fez nunca foi real”
Se o que estava no lugar do nada
era quase nada,
como não ter percebido...
E o sem-nome que passa pela porta?
Seria ele um intruso ou um convidado?
Se é um convidado,
o convite equivale a uma lacuna.
Com ou sem o outro
a lacuna permanece,
era e é.
Então o nada é
cada vez mais meu.
Meu nada é o espaço
onde tudo cabe.
É o lugar do novo.
O nada não é meu vazio.
É minha busca.
É minha bússola.
__ Pois não?

sábado, 18 de junho de 2011



Os meus dedos em grade
Os meus dedos em grade, ah, que eu não consigo atravessar!
Mário Quintana

Os dedos deslizam pelo teclado e o verso vem.
O ar invade meu peito.
Tão livre. Tão eu. Tão de volta pra mim.
A vida se revela ainda uma vez,
A avalanche quer um desafio,
Ah! O tornado é brisa.
Meus dentes os desafiam,
É um riso pueril a borboletear por mim.
Fechou o corte ou fechei-me?
Não importa quando as unhas cravam a carne.
Diante da pergunta, a resposta veio bravamente:
_Sim, sou eu!
Os olhos insistiram, o lábio mirou sem hesitar:
_Sim, sou eu!
Há tempos me espero...
Uma multidão ouviu, cada sílaba ecoou.
A fé emergiu,  muitas, tantas fés.
O leme, o manche, o rumo comemoraram, saudosos.
Olhei-me e me vi.
  

sábado, 7 de maio de 2011

Pão



            E o olhar de menino chamou o menino de outros tempos, aquele que vive guardado e de quando em quando vem nos salvar, nos defender da lâmina da rotina, vem nos redimir dos erros maduros, vem nos confidenciar a essência do que realmente somos.
            Percorreu com seus olhos ternos - olhinhos - todo o espaço, pensou em como parecia maior aquele encantado cenário num tempo em que suas pernas e seus braços eram grandes o bastante para pedir um colinho, um doce, um minuto de majestade. Refletiu sobre as mudanças feitas, na estúpida modernidade que tira a poesia das coisas simples.
            Não havia o som cordial dos bons-dias, em seu lugar uma música, dessas comerciais que inibem uma boa conversa e fazem com que a melhor companhia se torne distante. Não mais o cheiro do pão, pão que nos livra do mal - amém, só o prato rápido que rápido nos tira de um lugar porque não temos tempo a perder com a felicidade.
            O ambiente mudou. O bom dia mudou. O menino mudou. Só ficou o que ele tem de melhor: a lembrança, sua capacidade de senti-la e a sensibilidade para exprimi-la. Guardaria dali a bela imagem de seus brancos e longos dedos deslizando pelos cabelos de sua mãe, dando a ela a calma de que ainda precisa, e a molecagem de um chiclete grudado nas madeixas. Levaria na memória alguma brincadeira inventada, talvez um esconde-esconde por trás das prateleiras ou o sabor açucarado de um confeito difícil de comprar. Manteria no coração um nome de lugar, longínquo demais para os pés do garotinho, mas atingíveis para os do bravo cavaleiro, como Itália, Espanha ou França.
            Seria sempre assim, encontrou a chave. Logo que houvesse vontade ou necessidade buscaria cavalos cujos nomes nem mais pudesse recordar, aspiraria o cheiro do café do campo, pintaria mais uma vez os bichinhos do jardim e caso não fosse suficiente, melhoraria as próprias lembranças, criando lendas sobre figueiras que se entrelaçam.
            Passaria a ser o roteirista e o herói de suas histórias, salvaria mocinhas delicadas e mascaradas, elevaria o mundo com sua espada de sonhos, seu nariz del Quijote e sua voz de embalar, faria com que até os mais fortes lhe pedissem um colinho ou um doce, quiçá um minuto de majestade, se tornaria o pão.